Comportamento

Brigas entre irmãos: dicas sobre como lidar sem enlouquecer

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Criar um filho já é um desafio muito grande tanto para a mãe quanto para o pai, ainda mais quando são de ‘primeira viagem’. Na chegada do segundo ou até terceiro filho, as soluções para alguns problemas já são conhecidas, mas outros acabam surgindo, como é o caso das brigas entre irmãos. Famílias e especialistas concordam que esses conflitos são comuns e vão embora (ou diminuem) com o tempo, mas algumas dicas podem ajudar a lidar com o problema sem enlouquecer.

A problemática começa, geralmente, quando o primogênito descobre que vai ter um irmão e, de alguma forma, sente que vai perder o espaço que antes era só seu. É nesse momento que, se não houver uma preparação, a criança passa a competir pela atenção dos pais. A jornalista Luciane Marques teve o pequeno Davi, atualmente com 5 anos, quando o Miguel, de 11 anos, tinha apenas 5.

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“Eles brigavam muito quando eram menores. O Miguel, porque sempre foi sozinho, era tudo pra ele, os brinquedos eram só dele, os lanchinhos, só pra ele. Quando o Davi nasceu, tudo teve que ser dividido”, conta. Com isso, Luciane e o esposo passaram a comprar as mesmas coisas para os dois, porém, como ela lembra (e todos os pais bem sabem), criança pequena olha o que o irmão tem e quer aquilo para si.

Miguel e Davi brigavam por diversos motivos, desde o ‘campeão’ deles – os brinquedos -, até os lanches que, na concepção deles, tinham mais para um e menos para outros. A fórmula para resolver os conflitos mais simples era básica: um deveria pedir desculpas para o outro e tinham que se abraçar, para assim, representar a união que eles devem ter.

“Às vezes, brigavam quase todos os dias, e a gente tinha até que separar os dois. Deixava um no meu quarto e outro no quarto dos avós, já que morávamos juntos. Depois que acalmava, e eles paravam de chorar, eu sentava com eles e falava que tinham que ter paciência, que tudo realmente tinha que ser dividido e eles tinham que ser unidos”, conta a mãe.

mãe aparta briga entre irmãos

Os filhos da jornalista Luciane Marques brigavam quase todos os dias, mas os conflitos têm diminuído após muito diálogo em família – fotos acervo das famílias e Freepik

A psicóloga clínica Dilza Santos, especialista em terapias complementares e instrutora de Mindfulness para controle do estresse e ansiedade, explica que o papel dos pais, nesse contexto, é muito importante para amenizar a briga entre irmãos. Uma das principais dicas é fazer com que o primogênito, a partir do momento que o casal resolve ter outro filho, tenha participação e envolvimento nesse novo projeto.

“Às vezes, o pai e a mãe, inconscientemente, isolam a criança desse processo. Esse momento é para ser compartilhado em família, com amorosidade, com aceitação. Por exemplo, a mãe está grávida e chama o filho para explicar que seu irmão está chegando, pega na barriga da mãe, porque esse vínculo começa a ser fortalecido nesse período. Isso vai fazer uma enorme diferença, porque a criança vai perceber que o irmão não está vindo competir, mas sim compartilhar”, orienta Dilza Santos, que também é diretora da Perfil Psicologia e Bem Estar.

Demonstração de afeto por igual

Quem também teve que aprender a lidar com as brigas entre irmãos foi a professora de educação infantil Débora Dácio, mãe da Rayssa, de 15 anos, e do Bruno, 10 anos. Quando questionada sobre os motivos recorrentes dos conflitos, a resposta foi aquela conhecida dos pais: “Nossa, eles brigam por tudo”. Já crescidos, os conflitos entre os dois deixaram de ser sobre brinquedos e passaram a envolver outras coisas, como brigas por espaço, pelo uso da televisão (mesmo com outra desocupada, enfatiza Débora, entre risos), reclamações pelo tempo que o outro passa tomando banho, e a lista é grande.

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Débora lembra que as brigas mais constantes começaram quando ela teve que trabalhar e fazer faculdade, e precisou ficar mais tempo fora de casa. “Todos os dias quando eu chegava em casa, minha mãe falava que eles estavam brigando, e até já chegaram ao ponto de se machucar, por conta dos mesmos motivos de sempre”, afirma, acrescentando que chegou a ficar ansiosa e pensando todo tempo nos dois, por conta das brigas.

Sobre o episódio onde Rayssa e Bruno se machucaram, a professora relembra que ficou bastante triste e sem saber qual atitude tomar com os dois. “Porque a gente cria os dois de forma igual: o mesmo carinho, a mesma atenção, as mesmas responsabilidades, tudo igual. Então, quando aconteceu isso, fiquei sem saber o que fazer. Passei uma hora e meia conversando com a Rayssa e uma hora e meia conversando com o Bruno. Abraçava muito eles, pedia que eles se abraçarem, que pedissem desculpas, e foi muito difícil, porque eu preciso trabalhar e estudar para lhes dar um futuro melhor, e explicava isso para eles entenderem”, relata.

Para a professora, muito diálogo com os filhos e entre irmãos ajuda a resolver tais problemas, ainda mais pré-adolescentes. “Tem de mostrar que o amor que se tem pra dar aos dois é igual, que nenhuma responsabilidade será diferente de um para o outro. E que se amem, continuem se amando cada vez mais, sendo sempre unidos. É isso que eu passo para os meus filhos”, orienta.

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A professora Débora Dácio teve de aprender a administrar os atritos entre os filhos adolescentes

Conflitos saudáveis ou patológicos?
As brigas entre irmãos são comuns em todas as famílias e, em algum momento, elas vão surgir. Porém, os pais precisam ficar atentos e observar o comportamento dos filhos para identificar em que momento isso vai deixar de ser saudável e passar a se tornar patológico. A psicóloga Dilze Santos aponta que entre os sinais que indicam uma possibilidade de patologia estão a agressividade exagerada, dificuldades para dormir, choro e irritabilidade constante.

“Isso vem muito dessa fase de envolvimento do filho no processo de ter um novo irmão, que é inserida lá na infância, na fase inicial, e esse contexto conta muito. Se a criança está vivendo em um ambiente hostil, de uma forma negativa, violenta, ela vai agir dessa forma também. Agora, se ela está inserida nesse ambiente acolhedor, onde há respeito, onde há esse diálogo, esse problema tem menos efeitos da vida familiar”, explica.

Dilza também afirma que o isolamento desse irmão mais velho pode dar indícios de uma patologia. A jornalista Luciane Marques lembra que as brigas entre irmãos chegaram a lhe preocupar na época em que Miguel, o primogênito, passou a apresentar esses sinais de isolamento.

“Pro Davi não ficar chateado, pro Davi não chorar, o Miguel abria mão das coisas dele, para deixar o menor brincar e ele ficava isolado no quarto. Isso me deixou preocupada e eu falava ‘não, você vai brincar, você é criança, tem todo direito de brincar’. E também falava para o Davi que ele deveria deixar o irmão brincar, sempre reforçando a união que eles devem prezar”, conta.

A psicóloga explica que tudo é investigado a partir do comportamento dessa criança, e quando algo que é considerado normal de repente muda, algo não está bem. “Agora, é claro, tem que procurar um especialista, alguém realmente capacitado para dar esse diagnóstico. Não é o achismo que resolve isso, é procurar um especialista, terapeuta, psicólogo, além de manter o acompanhamento na escola para monitorar as mudanças nesse comportamento”, ressalta.

Sem comparações

A psicóloga clínica Dilza Santos reforça, ainda, que outra dica para evitar as brigas entre irmãos é intervir nesses conflitos, mas sem fazer comparações entre os dois. “Tem-se que intervir respeitando o espaço de cada um, respeitando essa fase do desenvolvimento e não queimar etapas. Porque, às vezes, acontece de os pais compararem o menino de 3 anos com o menino de 7 anos, e são etapas diferentes e devem ser tratadas separadamente”, orienta.

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Com o advento da tecnologia, os filhos dispõem de diversos produtos e ferramentas para passar o tempo, o que os deixa mais sozinhos dentro de casa, mesmo com outros irmãos e familiares por perto. A psicóloga acredita que os pais precisam ser criativos na hora de se envolver com os filhos e, até mesmo, evitar as brigas entre irmãos.

“Tem muitos brinquedos educativos que podem ser usados, tem que contar historinhas para seu filho, fazer um piquenique dentro de casa mesmo, montar barraquinhas com eles, chamar outro irmão, interagir. Compartilhar esse momento, usar brinquedos lúdicos, quebra-cabeça, jogos interativos, atividades onde toda a família participa”, salienta.

Evitar fazer com que a criança brinque isoladamente é prejudicial em todos os contextos. De acordo com a especialista, a criança precisa desses estímulos para desenvolver a cognição, desenvolver a fala, desenvolver ferramentas que serão importantes na fase adulta.

brigas entre irmãos 2 - Freepik

Os frutos dessa relação entre os irmãos, acompanhada da orientação familiar, já são visíveis na vida de Luciane Marques. Ela conta que, recentemente, saiu da casa dos pais e passou a morar em um apartamento, com o esposo e os dois filhos. Como os meninos tiveram que compartilhar o quarto, eles mesmo tiveram a iniciativa de definir regras entre si para proporcionar uma boa convivência.

“Eles dormem no mesmo quarto, e fizeram um acordo: num dia, a TV fica com um, e no dia seguinte, com o outro. Eles sabem quais os dias que um tem o poder do controle da televisão, em canais de criança. Quando querem ir para a internet, o Davi assiste na TV e o Miguel no tablet, os dois ficam juntos e conseguem dividir sem brigar”, diz.

A professora Débora Dácio também já consegue observar, a partir de conversas e do desenvolvimento dos filhos, que eles têm uma melhor convivência entre si. A preocupação que Rayssa e Bruno têm um com o outro fica acima dos conflitos corriqueiros. “Se qualquer um dos dois adoecer, eles não dormem direito, preocupados um com o outro. E, a partir disso, já começam a diminuir as brigas entre eles. Hoje em dia, já estão mais calmos, continuam brigando, mas agora são mais carinhosos”, conta.

Victor Cruz
filhos&tal

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