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Contato pele a pele entre mãe e bebê estimula produção de leite materno

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O contato pele a pele entre mãe e bebê logo após o nascimento é um direito de ambos e um dever dos profissionais que lhes prestam assistência, segundo recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre boas práticas no parto. E embora não seja muito divulgado pela grande mídia, esse simples gesto faz toda diferença na saúde e bem-estar do recém-nascido e da parturiente, influenciando inclusive no estímulo à produção de leite materno para a amamentação na primeira hora de vida, essencial ao bom desenvolvimento futuro do pequeno.

“Diferente de outras épocas, quando o bebê era levado ao berçário imediatamente após nascer, hoje, as equipes de saúde são orientadas a colocá-lo sobre o colo da mãe, num contato pele a pele direto. E isso tem trazido um benefício enorme, visto que facilita o processo de transição da criança do útero para o mundo exterior e deixa a mãe muito mais tranquila e feliz”, explica a pediatra e neonatologista Rossiclei Pinheiro, membro do departamento científico do aleitamento materno da Sociedade Brasileira de Pediatria e professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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Segundo a médica, uma das vantagens do contato pele a pele entre mãe e bebê é que ele reduz a hipotermia pós-parto nos recém-nascidos (queda de temperatura), já que o calor do corpo dela aquece o dele. Também faz com que o bebê seja colonizado com as bactérias da mãe e fique mais resistente às infecções hospitalares. “Só isso já diminui bastante os riscos de mortalidade infantil neonatal, ainda com altos níveis em todo o mundo”, comenta a médica.

leite materno - Pixabay

Diversos estudos constataram os benefícios do contato pele a pele entre mãe e bebê – fotos internas: Pixabay

Além disso, a respiração da mãe estimula a respiração do bebê; a frequência cardíaca dela ajuda a dar ritmo à frequência cardíaca dele. Ou seja, são inúmeros os benefícios do contato pele a pele entre mãe e bebê quando se pensa na transição dessa criança do seu mundinho particular, o útero, para o mundo coletivo, onde ela passa a dividir com outros seres um espaço comum, e precisa estar preparada para isso. “É o que chamamos de atenção humanizada, quando o processo passa a ser mais fisiológico e menos impactante para mãe e bebê”, frisa a doutora Rossiclei Pinheiro.

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Ela ressalta que um dos maiores benefícios do contato pele a pele entre mãe e bebê logo após o parto é, sem dúvida, o estímulo à produção de leite materno. Isso porque, estando mais confiante, feliz e relaxada com seu bebê no colo, a mãe terá mais ocitocina e prolactina, hormônios originados no cérebro que são fundamentais para a produção do leite materno.

“A ocitocina é o hormônio do amor, das emoções, então, quando a mãe pega seu bebê no colo, ela tende a ter um imprinting, ou seja, um momento olho no olho em que se apaixona pelo filho, reconhece-o como seu, deseja-o, e isso é fundamental no processo de produção do leite materno. Por isso, não se deve afastar o bebê dessa mãe, por isso a importância do contato pele a pele”, explica a neonatologista.

Também de acordo com a especialista, quando há essa descarga de ocitocina na mãe, ela vai direto a aureola do peito, fazendo com que o leite saia com mais facilidade. Ao passo que se a mãe estiver nervosa, com dor ou receosa de algo, haverá uma alta carga de cortisol, o hormônio do estresse, o que acarretará um bloqueio na descida do leite materno.

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Amamentação na primeira hora
Bebês amamentados com leite materno na primeira hora de vida fazem menos apneia (pausas respiratórias durante o sono) e também têm menos refluxo e vômito, além de adquirirem anticorpos que irão protegê-los contra inúmeros problemas de saúde.

“O bebê traz reflexos primitivos, então, ao sentir e reconhecer o cheiro da mãe, aflora nele o reflexo da procura, da sucção, fazendo com que mame no peito precocemente, o que lhe trará benefícios incalculáveis para toda a vida”, orienta Rossiclei Pinheiro.

Ela lembra que essa atenção humanizada é um direito tanto da puérpera (mulher que acabou de parir) quanto do recém-nascido, e destaca que, nas maternidades públicas de Manaus, assim como em algumas privadas, a prática do contato pele a pele e da amamentação na primeira hora de vida já está bem difundida, ainda que, a exemplo de todo o país, aquém do esperado pela Sociedade Brasileira de Pediatria e o Ministério da Saúde.

“Por esse motivo, fazemos um trabalho constante de conscientização junto aos profissionais de saúde envolvidos na hora do parto, desde os médicos e enfermeiros até os técnicos, fisioterapeutas e tantos quantos participem do processo”.

mãe e bebê - Pixabay

Mitos sobre amamentação
Engajados em diversos projetos de incentivo ao aleitamento materno, a doutora Rossiclei Pinheiro esclarece que, diferente do que se dizia no passado, não existe peito inadequado para amamentação.

Frases ou mitos como: “teu peito é muito pequeno”, ou “não tem um bom bico”, “tem de preparar a mama” não possuem sentido prático. Isso porque não existe preparo de mamas e sim de pessoas, espacialmente na conscientização sobre o fato de que o tipo de alimentação dada a um bebê até seus seis primeiros meses vai repercutir no resto de toda a sua vida.

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Origens do contato pele a pele
A prática do contato pele a pele entre mãe e bebê se originou de um procedimento chamado ‘mãe canguru’, surgido na Colômbia nos anos 70, devido à precariedade nos hospitais daquele país, que careciam de incubadoras para assistência aos nascidos prematuramente.

De lá para cá, popularizou-se em todo o mundo, inclusive no Brasil, como ‘método canguru’, dando vertentes a diversos estudos que constataram os benefícios do contato pele a pele entre mãe e bebê.

Por conta disso, deixou de ser uma recomendação apenas para nascidos prematuros e passou a beneficiar também os bebês nascidos a termo, ou com mais de 39 semanas de gestação, segundo entidades internacionais e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

Yndira Assayag
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