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Como se organizar para a volta ao trabalho após a licença maternidade?

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A volta ao trabalho é sempre um momento conturbado para as mães após o período de licença maternidade. Deixar o bebê aos cuidados de outra pessoa exige diversas medidas para tranquilizar a mãe no retorno a sua rotina profissional e contribuir para a saúde e bem-estar da criança, que passa por essa mudança entre os quatro e sete meses de vida. A organização da família para esse momento é um dos principais pilares para sair da licença maternidade de forma saudável tanto para a mãe quanto para o bebê.

A auxiliar administrativa Karina Bittencourt, mãe da Maria Laura, de seis meses, conta que, cerca de 15 dias antes da volta ao trabalho, começou a introduzir novos itens à alimentação da filha, além do leite materno.

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“A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda seis meses de leite materno exclusivo, mas, na época, eu só tinha quatro meses de licença maternidade, mais um mês que consegui pelo sindicato. Então, minha preocupação maior era se ela ia conseguir se alimentar”, relata. Para superar esse problema, Karina comprou diversos tipos de mamadeiras, com bicos diferentes, para que a filha começasse a se familiarizar com a nova forma de alimentação.

Porém, além da questão alimentar, a ideia de deixar o filho ou filha em casa ou na creche, com poucos meses de vida, também aterroriza as mamães. A separação entre os dois, que vão deixar de ficar juntos por quase 24 horas diárias, é um desafio que pode ser superado com orientação dos mais experientes e também de profissionais. Karina explica que, apesar do acompanhamento assíduo, também procurou o pediatra dois dias antes da volta ao trabalho.

Aflita por ter que se afastar da filha, e preocupada com a alimentação, ela tentou conseguir mais 15 dias para ficar em casa, mas logo entendeu que o distanciamento iria acontecer mais cedo ou mais tarde. “Ele (o pediatra) disse que era assim mesmo, que uma hora íamos ter que nos separar e que a bebê ia se adaptar com o tempo”, lembra. Para a mamãe, aproveitar o tempo que passava com a filha a ajudou a superar a aflição da distância e se sentir mais confortável com a nova rotina de mãe e profissional.

volta ao trabalho após licença maternidade

Para Karina, aproveitar o tempo que passava com a filha a ajudou a superar a aflição da distância

Qualidade e não quantidade

A psicóloga Nazaré Mussa, especialista em psicopedagogia e terapia cognitiva comportamental, explica que o tempo que se passa com a criança deve ser medido em relação à qualidade, e não à quantidade. Ou seja, de acordo com ela, o momento que a mãe terá com o filho deve ser dedicado à alimentação, afeto e estimulação ao desenvolvimento do pequeno. “Se eu estimulo a minha criança com brinquedos lúdicos, a arrastar, engatinhar, a falar os nomes das coisas, isso tudo vai fazer uma diferença no desenvolvimento intelectual dela”, explica.

Nazaré conta que é muito comum as mães juntarem o período de férias com os meses de licença maternidade, para, assim, passar mais tempo com o filho.

“Dependendo do emprego, essa mãe pode negociar horários para ir até sua casa amamentar o filho ou solicitar que alguém o leve ao ambiente profissional. Quando ela volta ao trabalho, precisa se organizar, emocionalmente falando, e organizar a vida do bebê, pra que possa deixar a licença maternidade sem a angústia de deixar o filho”, diz.

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Mas como ela se protege dessa angústia? Nazaré Mussa fala que deixar tudo muito organizada é uma das chaves para o ‘sucesso’ na volta ao trabalho. “Ao sair dessa zona de conforto, quando a mãe e o pai têm que trabalhar, eles também têm que organizar a vida da criança. Não só o horário de alimentação, mas também os horários do banho de sol, deixar todos os telefones do trabalho, deixar número do telefone do pai, de uma pessoa próxima e, se mora em apartamento, avisar a vizinha pra dar uma olhada. Cercar a criança de cuidados que são extremamente necessários”, orienta.

Com base em sua experiência profissional, a psicóloga comenta que, geralmente, a criança fica sob os cuidados da avó. No caso de os pais morarem em uma cidade diferente, é normal que uma boa creche seja procurada para ficar com a crianças, mas, mesmo assim, é natural que o bebê sinta falta do contato com a mãe nas primeiras semanas. “Não tem como evitar, o que pode ser feito é minimizar esse impacto, organizando a vida dos dois”, frisa.

Confiar em quem cuida

A jornalista Flávia Rezende, mãe da Beatriz, atualmente com 1 ano e 8 meses, também enfrentou esses desafios após o fim da licença maternidade. Ela acredita que faz parte de uma porcentagem privilegiada, porque o trabalho como repórter, dela e do marido, era de apenas meio período, o que não é a realidade da maioria.

“Me senti muito mais tranquila com essa questão de poder contar com meu marido nos cuidados da Beatriz. Se eu tivesse que deixar aos cuidados de uma creche ou pessoa contratada, com certeza seria mais desafiador”, conta, lembrando que os dois conseguiram negociar com a chefia para trabalhar em horários diferentes, para um cuidar da bebê enquanto o outro trabalhava.

Mesmo com essa facilidade, Flávia relata que, normalmente, o que passa pela cabeça das mães é que elas sempre acham que podem cuidar melhor dos filhos, e isso acaba levando aos momentos de aflição. Conversar bastante e confiar em quem cuida é um dos segredos.

licença maternidade

Flávia teve de aprender a confiar no marido para cuidar da filha após seu retorno às atividades profissionais

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“Eu tinha medo da minha filha chorar muito e não conseguir se acalmar, não conseguir ficar tranquila com a minha ausência. Eu consegui superar isso a partir do momento em que confiei no meu marido, que cuidava dela, e vi que ele também ia, da maneira dele, tentar dar o melhor pra nossa filha, e era questão de tempo até ela se acostumar com isso”, afirmou.

A conexão entre mãe e filho, principalmente nos primeiros meses de vida, é muito intensa, e essa separação por conta da volta ao trabalho pode ser muito traumática. Mesmo sendo um tabu, Flávia lembra que interromper a amamentação é muito doloroso para a mulher, porque o seio fica cheio de leite, e o ambiente de trabalho raramente dispõe de espaços para ‘ordenhar’ ou amamentar o bebê em horários de intervalo.

“Pela minha experiência, a primeira dica que eu daria é, desde a gravidez, já pensar na rede de apoio, ou seja, quem são as pessoas que vão poder ajudar nessa transição de volta ao trabalho, quer seja parente, quer seja babá, empregado doméstico ou creche”. Flávia também destaca a questão emocional, que depende da confiança que a mãe tem nela mesma, na própria criança e em quem vai cuidar do bebê após a licença maternidade.

Desistir do emprego pode não ser a melhor opção

Pensar sobre voltar à rotina profissional após o fim da licença maternidade, e sentir na pele a experiência de ficar longe do filho, muitas vezes deixa as mães aflitas e algumas acabam desistindo de trabalhar. Flávia Rezende conta que o que ajuda a passar por isso de maneira menos traumática é ter a consciência de que isso é um período de adaptação para toda a família, e ter paciência para entender que, em algum momento, tudo vai melhorar.

“Talvez, para aquela situação, a volta ao trabalho seja necessária, seja importante para a família, financeiramente falando, e também para a mulher se sentir colocada na sociedade, sentir sua importância, não só em ser mãe”, ressalta.

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Karina Bittencourt, que também compartilha sua experiência, diz que a ideia de parar de trabalhar passa na cabeça, mas o tempo ajuda a superar esse medo. “O ambiente de trabalho também ajuda muito a você não parar de trabalhar. A gente precisa do emprego. Pensar que o teu trabalho consegue te dar o melhor para você dar o melhor pro seu filho é essencial. Vai sofrer, vai chorar, é inevitável, mas tem que pensar que aquilo é pra dar uma criação boa para o filho”, afirma.

A psicóloga Nazaré Mussa ressalta que é importante lembrar que todas as famílias passam por esses desafios, todos saem para trabalhar. “Hoje, no mundo, tem que trabalhar pai e mãe. É difícil aquela família que tenha condição financeira estável ao ponto de a mãe ficar em casa cuidando do filho. Então, quanto mais segurança a mãe e o pai derem para essa criança, melhor”.

Logo, para a psicóloga, a organização da família para passar por esse período é essencial, negociar com chefes os melhores horários e deixar o filho sob cuidados de confiança também ajudam, e, quando chegar à casa, passar o tempo com qualidade também faz toda a diferença.

Victor Cruz
filhos&tal

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