Comportamento

A nova rotina das famílias em isolamento social devido à Covid-19

 | 

Tentar conciliar trabalho, afazeres domésticos, cuidados e educação dos filhos. Essa tem sido a nova rotina das famílias em isolamento social devido à pandemia de Covid-19, causada pelo novo Coronavírus. Uma realidade que afeta não só as mães e pais brasileiros, mas de toda a Terra, dada as recomendações das agências de saúde para que se evite sair de casa.

O trabalho remoto foi adotado por muitas empresas, assim como o recesso das escolas e faculdades, fazendo com que a rotina das famílias mudasse rapidamente. E como será que eles estão se virando com a criançada em casa?

A artesã Dora Medeiros, 34, mãe de quatro crianças, trabalha em casa há alguns anos, mas, para manter as encomendas, cuidado com a casa e os filhos, contava com a ajuda da escola. Sem isso, porém, confessa que tem tido dias difíceis, sobretudo porque suas crianças tem idades diferentes, sendo o mais novo de 2 anos e a mais velha de 13. “Nos primeiros dias, estava com umas encomendas, entreguei e parei de pegar, para ficar mais com eles, pois, por mais que eu fique em casa, não consigo dar a atenção necessária”, conta a artesã.

Dora e seus quatros filhos. Foto: arquivo pessoal

Com quatro crianças em casa, o cuidado é diferente para cada uma, principalmente por conta das orientações sobre o Coronavírus, sobretudo, por que o seu marido continua trabalhando, o que a deixa apreensiva, então, a abordagem com as crianças é totalmente franca. “Estou sendo verdadeira. Digo que a doença pode vir até nós mesmo com todos os cuidados, porém, que podemos retardar a chegada, e nos alimentar bem, para que estejamos fortes e não precisemos ocupar espaços que outros podem precisar, como os idosos e pessoas que tem uma doença respiratória”, comenta Dora, que resolveu suspender as encomendas até se adaptar melhor à nova rotina.

Leia também: Covid-19: quarentena e escolas fechadas são combinação eficaz

Sem rede de apoio

A nova rotina das famílias em isolamento social devido à Covid-19 também já é uma realidade para a universitária Giovana Magalhães, 21, mãe do Heitor, de um ano e 8 meses. Antes, ela contava com uma rede de apoio maior para conciliar a vida acadêmica com a maternidade, mas com as universidades adotando as medidas de prevenção, o estudo passou a ser à distância, pelo portal da própria instituição ou pela plataforma ‘Google Sala de Aula’. “Não estamos recebendo visitas, sendo assim, a minha rede de apoio ficou super reduzida. Agora dou atenção ao Heitor, enquanto está acordado, e quando dorme, me dedico às matérias”, conta a universitária que está no 7° período de enfermagem.

Giovana e o pequeno Heitor, de 1 ano e 8 meses. Foto: arquivo pessoal

Giovana também se preocupa com as medidas de prevenção ao coronavírus, já que seu marido continua exercendo as funções na empresa em que trabalha. “Nossa vida mudou muito, tanto alimentação, quanto interação. A rotina quando meu esposo chega é super rigorosa também. Temos o ambiente infectante e o limpo”, relata Giovana.

A mãe do Heitor também conta que as redes sociais e outros grupos de apoio às mães têm ajudado a equilibrar os afazeres, principalmente, porque disponibilizam conteúdos gratuitos para a distração e interação das crianças, como gibis, brincadeiras educativas e sensoriais.

Leia também: Quarentena: dicas sobre o que fazer com a criançada em casa

Outra família que tem se adaptado ao novo momento é da assistente administrativo Luciana Carvalho, 30, mãe do João, de 6 anos. Apesar de já ter uma rotina bem corrida, por causa do trabalho e do cuidado com o filho, uma vez que é mãe solo, agora ela tem que equilibrar a vida profissional e a maternidade no mesmo ambiente, ou seja, dentro de casa. “João tem epilepsia e é uma criança muito ativa, por isso tento não deixá-lo na frente das telas, mas a correria é intensa. Por exemplo, eu preparo o jantar enquanto tento ler as demandas do trabalho”, conta Luciana.

Luciana em seu momento de descanso com o filho, João. Foto: arquivo pessoal

A mãe do João acredita que as escolas são uma das ‘salvações’ das mães solo, pois é onde as crianças extravasam a maior parte da energia durante o dia. Luciana, porém, entende e apoia a decisão do recesso escolar. Além de temer o futuro por conta da contaminação do vírus, ela procura não pensar tanto nisso e tenta focar o dia para tentar distrair João. “Estamos vivendo um dia de cada vez. Temos muitos privilégios, como uma casa com quintal e internet, o que nos dá muitas opções, principalmente nos dias de chuva. Não temos problemas de tédio por que sempre tem casa pra limpar e tarefas para fazer”, conta.

Leia também: Como cuidar da alimentação para manter a imunidade das crianças

Grupos de risco

O isolamento social é uma ação efetiva para diminuir a proliferação da Covid-19, mas também para evitar a contaminação de pessoas no grupo de risco, como asmáticos, idosos, hipertensos, diabéticos e doentes crônicos.

É o caso do fotógrafo Bruno Zanardo, 39, e da filha dele de 7 anos, que são diabéticos. Eles estão em isolamento juntos. “O namorado da mãe dela trabalha no distrito, então achamos arriscado a nossa filha ficar com eles e decidimos que seria mais seguro ela ficar comigo, já que eu já estava em quarentena desde o anúncio do governador para grupo de risco fazer home office”, conta o fotógrafo.

Bruno e sua filha. Foto: arquivo pessoal

Assim como outras famílias em isolamento social, a nova rotina de pai e filha juntos passa por equilibrar trabalho, afazeres de casa e cuidados de prevenção à Covid-19. Fácil não é, mas a adaptação está seguindo conforme o planejado. O fotógrafo conta com a ajuda da filha na rotina diária e ela com a dele nas atividades escolares. Já a ‘distração’ fica por conta da pintura e dos jogos de videogame. “A rotina mudou completamente, antes levava minha filha na escola, passava num café e depois ia trabalhar. Vinha almoçar em casa quando dava. Agora está tudo concentrado aqui. É 24 horas por dia aqui em casa, tentando manter a ordem, fazendo os trabalhos da escola da minha filha e trabalhando”, relata Bruno.

Leia também: Projeto flexibiliza calendário escolar por coronavírus

Manter a calma

Como se vê, a nova rotina das famílias em isolamento social por conta da pandemia de Covid-19 não está sendo fácil,  mas todas as medidas que as agências de saúde estão recomendando é para diminuir a contaminação do vírus, e para que isso aconteça todo mundo tem que ajudar, cada um dentro da sua casa. Lavar as mãos constantemente e usar álcool em gel é uma das ações preventivas, mas manter a saúde mental também é importante para passar por tudo de forma leve.

Segundo o psicólogo Adonai Chacon, manter a calma é crucial neste momento, fazer um planejamento e tentar seguir uma rotina normal pode ajudar. Também evitar o excesso de informações e ter cuidado com a veracidade delas. Fazer atividades físicas e o que gosta, de forma mais leve e sem pressão, é o ideal. Lembrar que apesar dos trabalhos remotos, manter a rotina de trabalho de antes também ajuda na organização e produtividade.

Quanto à rotina das crianças, o psicólogo recomenda paciência, afinal, é um novo momento para elas também, então, além das atividades escolares que foram passadas para casa, é importante as brincadeiras e ficar no seio familiar. “As crianças normalmente se adaptam mais facilmente às mudanças das dinâmicas, mas não é por isso que a gente pode esquecer que a rotina delas também está diferente. Elas também podem ficar entediadas ou ficar ansiosas. Então, o adulto é a pessoa que tem a noção do que fazer”, ressalta Chacon.

Thayssa Castro
Especial Filhos&Tal