Comportamento

Educação antirracista: como ensinar os filhos a lidarem com as diferenças

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Uma criança não nasce racista, mas o meio em que convive pode definir seu comportamento. Como diria o filósofo francês Henri Wallon, o processo de evolução do sujeito depende tanto da capacidade biológica quanto do ambiente, que o afeta de alguma forma. Os primeiros rabiscos do desenvolvimento de uma pessoa são cruciais para determinar como ela lidará com as diferenças étnico-raciais no futuro. Por isso, a construção de uma educação antirracista – em casa e na escola – deve ser pensada desde cedo.

A psicóloga e escritora Lívia Marques fala que, como consequência da escravidão, o racismo virou ‘tradição’ no Brasil. Portanto, a melhor forma de combatê-lo seria se todos aprendessem a lidar com questões raciais desde a infância. “As crianças aprendem muito cedo a reproduzir o racismo. Se não pararmos isso na hora, só vai fazer com que o racismo se propague e que essa criança vire um adolescente racista, um adulto racista, um idoso racista. Precisamos ensinar que todos nós temos direitos, que todos nós temos voz e que é importante respeitarmos um ao outro e não julgarmos ninguém pela cor da sua pele ou pelo seu cabelo”, pontua.

Autora do livro ‘Dandara e Vovó Cenira: A descoberta de si e da ancestralidade’, Lívia destaca que é muito comum o racismo não ser discutido e nem trabalhado, ao contrário do que deveria ocorrer. “Nós precisamos fazer isso agora, a partir do ‘letramento racial’ [conceito criado pela antropóloga afro-americana France Winddance Twine como estratégia para desconstruir o racismo a partir da reeducação]”, explana.

Segundo pesquisa da Associação Americana de Psicologia, as crianças estão prontas para falar sobre raça muito antes dos adultos quererem conversar sobre o tema, e uma educação antirracista desde a primeira infância é fundamental na batalha pela igualdade.

educação antirracista para crianças

O diálogo é o melhor caminho para uma educação antirracista, que vai de casa à escola – foto: Elói Corrêa

E qual o primeiro passo para uma educação antirracista?
A psicopedagoga e professora Monique Gonçalves explica que, para criar um ambiente de diálogo contra o racismo, é necessário primeiro entender que o Brasil foi construído sob um olhar racista. Diversas pesquisas comprovam essa afirmação.

O último informativo ‘Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil’, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por exemplo, aponta que, enquanto brancos representam 70,6% no estrato dos 10% com maior rendimento per capita no país, negros representam 75,2% do grupo dos 10% com as menores rendas.

Levantamento recente do Instituto também mostra que, durante a pandemia do novo coronavírus, o desemprego atingiu mais fortemente a população negra no Brasil: a taxa de desocupação dos pretos foi 71,2% superior que a dos brancos.

No âmbito da segurança, infelizmente, os negros permanecem sendo mais ameaçados. Conforme o Atlas de Violência 2020, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), entre 2008 e 2018, o número de homicídios de pessoas negras no Brasil cresceu 11,5%, enquanto de não negras caiu 12,9%.

Monique ressalta que somente após ter esse cenário em mente, é possível ‘desconstruí-lo’. “Precisamos instruir a crítica contra esse sistema até que o racismo não seja mais naturalizado”, afirma, enfatizando que é preciso ensinar às crianças que o racismo é errado, é crime – o que é endossado pela Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989.

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Como mãe e psicopedagoga, ela trabalha a educação antirracista através do diálogo, do acesso às informações sobre a vida, história e contribuição do povo negro. “É importante colocar na rotina atitudes básicas, como a importância da representatividade, que é tão falada, porém pouco trabalhada na prática. Por exemplo: posso trabalhar com um jogo de origem africana em meu consultório para abordar um conteúdo matemático e ao mesmo tempo abordar a representatividade. Temos o Mancala que é excelente para isso. Dentro da minha casa, posso escolher com maior frequência filmes com protagonistas negros, uma boneca branca e uma preta, ouvir músicas de origem africana. São atitudes básicas que trazem a valorização da cultura negra como parte da nossa vida”, pontua.

Luta de todos
Se a ideia é trabalhar uma educação antirracista junto aos pequenos, logicamente os adultos precisam se engajar, buscar aprender sobre o assunto para compartilhá-lo. Formado atualmente por 247 pais/mães – de diversas cidades do país –, o Movimento Escolas Antirracistas foi criado com esse propósito, de aprender sobre a luta antirracista e descobrir de que forma contribuir.

Uma das coordenadoras do grupo, Iramaia Gongora elucida que, embora o racismo esteja presente em tudo, o ambiente das escolas particulares – onde seus filhos estudam – era especialmente propício. Desde então, o grupo se reúne virtualmente e organiza frentes de trabalho com agendas específicas. “O trabalho está apenas começando, mas há bons sinais”, ressalta.

Branca e mãe de uma criança negra, Priscila dos Santos, especialista em Gestão do Conhecimento, Inteligência de Mercado e Tecnologias na Aprendizagem, também decidiu criar um projeto para dialogar com pessoas brancas sobre racismo. A iniciativa teve sua faísca a partir de uma reflexão do próprio filho, Pedro Augusto, de cinco anos, que questionou em qual lado ela estava na luta contra o racismo.

mãe fala sobre educação antirracista

Pedro Augusto foi a inspiração de Priscila no projeto para dialogar sobre racismo com pessoas brancas – foto: arquivo pessoal

Em julho deste ano, com o apoio de um grupo de mulheres negras, Priscila publicou o ebook  “Ei, você, cara pálida!”, disponibilizado de forma gratuita. “Inicialmente, pensei em produzir conteúdo que ajudasse as pessoas brancas a refletir sobre o racismo. Envolvi nessa ação mulheres negras para compor o grupo de trabalho e, juntas, tivemos a ideia de criar o e-book para ajudar organizações, escolas e até empresas com ações de sensibilização para o tema”. Para 2021, a ideia é lançar um curso/livro para famílias, abordando o tema educação antirracista.

Educadora e contadora de histórias, ela diz que, infelizmente, mesmo em um país com maioria negra, a normativa é branca. Em busca da representatividade, da naturalização da diversidade, principalmente enquanto mãe, Priscila busca apresentar referências negras a seu filho, seja na literatura infantil, no teatro, no cinema.

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A rotina em casa também envolve pequenas ações, como nos cuidados com o cabelo – “o cabelo do meu filho é cacheado e, como meu marido está careca, eu deixo o meu natural, sem alisar, para ser coerente com o discurso e reafirmar a beleza dos cachos” – ou na hora do desenho com o pequeno – em que sempre cria personagens com lápis preto, reafirmando a beleza dessa cor. “É preciso ter discurso antirracista, mas essencialmente ter atitudes que sejam antirracistas”, expõe Priscila.

A psicóloga e ativista social Mariana Luz também lançou um guia antirracista para falar de relações raciais e da história do Brasil. Primeira publicação de sua carreira, o e-book pode ser encontrado no portal eletrônico da nova escritora e ser baixado sob o valor de R$ 9.90.

Mariana discorre que a educação antirracista é imprescindível para superar as barreiras impostas pelo racismo. “Por exemplo, se pais – independente de raça – contarem a história do Brasil para seus filhos, incluindo como eles são e quais suas responsabilidades diante do tema, teremos um futuro melhor, com certeza. Essa é a ideia do e-book, mostrar que a história de negros do Brasil é a história do nosso país e não somente de uma raça”.

Para quem está interessado em participar desse debate, é possível encontrar essas e outras séries de publicações para a aprendizagem, como o livro virtual ‘Para uma educação antirracista’, criado por 22 educadores da Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Jardim Ideal, no Grajaú – que traz dicas de combate ao racismo desde a infância –, ou como o manual da editora Piraporiando, desenvolvido pela escritora e educadora Janine Rodrigues – que é direcionado a todos que acreditam na necessidade de uma educação antirracista.

Luana Gomes
Filhos&Tal