Bem-estar

Especialistas veem alta letalidade de crianças com Covid-19 internadas A chamada síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica tem sido um dos agravantes desses óbitos

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Estudos apresentados à Comissão Externa da Câmara de enfrentamento à Covid-19 mostram maior letalidade de crianças com Covid-19 internadas. O dado é em torno de 10% para as pessoas de 0 a 19 anos com diagnóstico confirmado da doença. O médico intensivista Arnaldo Prata chegou a esse índice ao dividir os 759 óbitos pelos 7.436 pacientes internados dessa faixa etária até 22 de agosto, quando o país registrava um total de mais de 111 mil mortos por Covid. Na faixa até cinco anos, foram 371 mortes.

Nos Estados Unidos, por exemplo, esse número não chega a 100. Prata, que também é pesquisador do Instituto D’Or, apresentou um resumo dos estudos sobre crianças contaminadas com o novo coronavírus internadas nas UTIs do País. Segundo ele, a chamada síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica tem sido um dos agravantes desses óbitos.

Comissão Externa de ações contra o coronavírus debateu mortalidade das crianças com Covid-19
“Entre pessoas de 0 a 19 anos, menos de 1% necessita de internação hospitalar. Porém, das que internam, a mortalidade pode ser alta. A presença de comorbidades aumenta em quase seis vezes a chance de gravidade e essa doença inflamatória multissistêmica pode acontecer em torno de 10% a 15% dos casos”, explicou.

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Comissão Externa de ações contra o coronavírus debateu mortalidade das crianças com Covid-19 – fotos: agência Câmara

Essa síndrome associada à Covid-19, também conhecida como SIM-P, é uma doença autoimune marcada por febre persistente, cefaleia e vários problemas cardiovasculares, renais, gastrointestinais e neurológicos. O alerta internacional surgiu em maio. No início de agosto, a Sociedade Brasileira de Pediatria elaborou um manual de diagnóstico e tratamento. O Ministério da Saúde só passou a recomendar a notificação desses casos em julho. Desde então, foram oficialmente registrados 197 casos de síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica associada à Covid-19 até o dia 22 de agosto. Ceará (41), Pará (24) e Rio de Janeiro (22) lideram a lista de casos, mas os especialistas afirmam que há subnotificação. O diretor do departamento de ações programáticas estratégicas do Ministério da Saúde, Antônio Braga Neto, informou que o órgão ainda está concluindo o protocolo de atendimento e pode exigir a obrigatoriedade de notificação.

“O Ministério da Saúde está monitorando os casos e tem procurado garantir os leitos hospitalares necessários. Ainda é uma doença nova e o que temos de garantir, na atenção primária, é a capilaridade das informações”, disse. “Quando uma criança chega à atenção primária com histórico de febre há três dias e tem alguns dos sintomas – como náusea, cefaleia, conjuntivite, excluindo causas de sepse – e apresenta alterações laboratoriais, ela deve ser encaminhada para uma atenção especializada, pois a gente pode estar diante de um caso de inflamação multissistêmica pediátrica”.

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Bebês internados em UTI neonatal

Segundo Braga Neto, o ministério também tem procurado garantir a aquisição de imunoglobulina, que é o principal medicamento para essa síndrome, mas que se tornou escasso e caro diante do aumento da demanda mundial.

Leitos disponíveis

Vice-presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), Marcelo Brandão manifestou preocupação quanto à disponibilidade de leitos, profissionais capacitados, medicamentos e insumos para enfrentar a síndrome. Os casos mais graves, por exemplo, necessitam de oxigenação por membrana corpórea, um equipamento hoje presente em poucas UTIs pediátricas de referência. Segundo Brandão, o avanço da pandemia para o interior do país e a futura reabertura de escolas e creches também são preocupantes.

“A gente não sabe exatamente como vai ser a evolução, já que a gente está aprendendo no decorrer da pandemia. Em algum momento, haverá a abertura das escolas e o encontro das crianças outra vez, então, a gente prevê que deve ter um aumento no número de pacientes que vão internar em UTI”.

Intensivistas

Eventuais sequelas da síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica ainda estão em estudo. O debate em torno do tema foi solicitado pela bancada feminina da Câmara. A relatora da comissão externa, deputada Carmen Zanotto (Cidadania-SC),  destacou a necessidade de reforço no quadro de profissionais da medicina intensiva, que hoje conta com apenas 18.600 pessoas, incluindo médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem.

“Essa pandemia precisa deixar o legado de a gente ter mais profissionais intensivistas nas UTIs neonatais e nas UTIs pediátricas. Muitas vezes, o resultado do tratamento está diretamente ligado à equipe que faz o atendimento”.

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De acordo com a Associação de Medicina Intensiva Brasileira, o país tem 796 UTIs neonatais e 613 UTIs pediátricas, que oferecem em torno de 13 mil leitos para crianças. No entanto, quase metade deles está concentrada na região Sudeste. Para o presidente da comissão, deputado Dr. Luiz Antônio Teixeira Jr. (PP-RJ), o cuidado precoce deve ser a base do combate a essa síndrome pediátrica.

“Essa é uma sugestão: que tenha uma urgência pediátrica qualificada para esses diagnósticos e possa fazer algum tipo de acompanhamento, seja por telemedicina ou levando a criança para lá, de forma precoce, para evitar o agravamento do caso”.

O Ministério da Saúde informou que estuda a inclusão de menores com comorbidades na lista prioritária para a futura vacina contra a doença, evitando assim casos de crianças com Covid-19.

Agência Câmara