Bem-estar

Mães de bebês nascidos na quarentena falam da nova rotina

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A chegada de um novo membro à família é sempre motivo de grande alegria para todos. Parentes ou amigos, não há quem não queira visitar, tocar, abraçar, cheirar e até ajudar nos primeiros cuidados, o que para as recém-mães é um alento. Mas, num cenário mundial tenso e inesperado, com orientações rígidas de distanciamento sociais, devido à pandemia de coronavírus, o que muda na rotina das mães de bebês nascidos na quarentena? Do que mais sentem falta?

A enfermeira obstétrica Anne Caroline Santos, 30, teve o pequeno Bernando no final de fevereiro, momento em que o segundo caso de coronavírus ainda estava sendo confirmado, no Estado de São Paulo, e ela não tinham ideia que as coisas mudariam, já nos próximos 15 dias, em Manaus também, principalmente sobre os cuidados que os bebês nascidos na quarentena são inseridos.

Em meio ao puerpério, veio o ainda totalmente desconhecido isolamento social, medida extrema para evitar o contagio pelo temido novo coronavírus. O fato mudou por completo a rotina de Anne e sua família, que ainda estavam em fase de adaptação aos cuidados com o primeiro filho. Ela e o marido já tinham escolhido não receber visitas no primeiro momento, mas não esperavam que as visitas fossem ter que esperar tanto tempo para acontecer.

“A minha experiência está sendo mais complicado agora, não podemos receber visitas ou sair. Ele (o bebê) já teve problema de pele e tivemos que fazer uma videoconferência com a médica. Agora nossas saídas se resumem em ir ao pediatra e tomar as vacinas”, conta Anne, que fica aflita nas saídas que são rotineiras e necessárias.

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Anne e seu primeiro filho, Bernando – foto: arquivo pessoal

Além de ter que lidar com as primeiras dificuldades da amamentação, choros, noites de sono desregulado e todos demais os cuidados que um bebê precisa nos primeiros meses, a enfermeira ainda tem que lidar com a saudade da família. Para driblar a dificuldade, uma das tarefas da nova rotina de Anne é fazer vídeo-chamada para que os familiares consigam acompanhar o desenvolvimento do Bernado, além de registrar os pequenos momentos do dia-a-dia. Aliás, é assim que os bebês nascidos na quarentena estão sendo apresentados a parentes e amigos.

Mesmo com o afrouxamento das medidas de isolamento, a mãe do Bernando ainda não se sente segura para sair de casa, mas já está se preparando para o fim da licença maternidade e a volta ao trabalho.

“Minha próxima batalha é à volta ao trabalho. Como eu presto serviço para hospital, eu vou estar constantemente dentro da área hospitalar, o que me dá medo”, conta a enfermeira.

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Um sinal de esperança

Os dias são de incertezas, afinal, não há previsão de quando a pandemia de covid-19 vai acabar. Segundo dados divulgados em maio pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), estima-se que 116 milhões de bebês nascerão no mundo durante a pandemia.

Diante disso, pode-se dizer que os bebês nascidos na quarentena serão uma luz de esperança. Essa foi à mensagem de coragem que o Papa Francisco, em sua conta oficial no Twitter, deu, no dia 3 abril, para as futuras mães que estão esperando bebês.

“Hoje, gostaria de agradecer às jovens mães que enfrentam os medos compreensíveis. E obrigada também a quem as ampara com afeto, com competência. As crianças que nascem em tempos de #coronavírus são um sinal de grande esperança”, disse Francisco.

E é esse sentimento de fé e esperança que dão forças à Bióloga Iris Aguiar, 30, mãe da Isadora (de dois anos), e da pequena Mariana, que chegou entre os bebês nascidos na quarentena. No inicio do isolamento, Iris ainda estava com 27 semanas, sem expectativa de quanto tempo este momento iria durar. A ansiedade e insegurança estiveram presentes até o final da gestação, mas os sentimentos de fé em Deus e em dias melhores permaneciam, o que lhe encorajava nas idas ao médico para acompanhar a gravidez.

“A cada saída, sempre pedia proteção de Deus e tomava todos os cuidados de higiene e proteção, como o uso de máscara. A reta final de gravidez foi assim, com isolamento, saídas apenas para as consultas de rotina ou exames”, conta Iris.

Os planos antes da pandeia eram por um parto normal na maternidade, para uma recuperação mais rápida e sem a necessidade de ficar muito tempo num hospital. Mas, com a quarentena, até isso mudou na vida da bióloga.

As recomendações médicas eram para ela ficar em casa durante o pré-trabalho de parto e ir para a maternidade apenas quando as contrações estivessem efetivas, o que Iris e o marido até tentaram.

“No dia do trabalho de parto, quando estávamos saindo para a maternidade, a minha bolsa estourou. Apesar de já estar com contrações efetivas, a minha bolsa ainda não tinha estourado. Depois disso, ela (a bebê) já veio coroando e não deu tempo de ir para a maternidade, então, ela acabou nascendo em casa”, conta a bióloga.

Após o nascimento, o Samu foi acionado para os primeiros atendimentos, e mãe e filha foram levadas para a maternidade.

“Lá na maternidade foram dados os procedimentos médicos de exames e avaliações, mantivemos os cuidados com a higiene e os cuidados com o bebê por ser recém-nascida. Quando voltamos para casa também continuamos com os mesmos procedimentos. Estamos com restrição de visitas, e saídas apenas para coisas essenciais”, conta Iris.

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Segundo a Unicef, 116 milhões de bebês podem nascer durante a pandemia do coronavírus – foto: freepik

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Reta final e ansiedade

A funcionária pública Pollyana Sampaio, 30, está com nove meses completos e esperando a chegada de Athena para qualquer momento. Ela confessa que os sentimentos de insegurança por ser mãe de um dos muitos bebês nascidos na quarentena estão aflorados.

“É um mix de ansiedade e preocupação. Afinal, não estamos vivendo em tempos ‘normais’, onde se consegue fazer um parto com mais tranquilidade e segurança”, pondera Pollyana.

Como ela, muitas outras grávidas devem estar com a cabeça cheia de dúvidas e incertezas, mas as agências de saúde podem dar uma ajudinha. Entre as recomendações para gestantes estão não abandonar o pré-natal e seguirem à risca o isolamento social, com todos os cuidados de segurança e higiene pessoal. Já pra o parto, orientam a diminuição do número de acompanhantes, suspensão de visitas e o uso da máscara durante o nascimento.

Outra recomendação é para que mães e bebês nascidos na quarentena não sejam separados, podendo a amamentação ocorrer normalmente, mesmo em caso de contaminação pelo coronavírus. É que não há, até o mento, nenhuma comprovação científica de que o vírus seja transmitido pelo leite materno.

Para tranquilizar mãe e pais sobre o tema, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), em conjunto com outras instituições, participou da elaboração da Nota Técnica Nº 7/2020, do Ministério da Saúde, eu você pode acessar neste link https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/SEI-MS_-_0014033399_-_Nota_Te__cnica_Aleitamento_e_COVID.pdf.pdf

 

Thayssa Castro

Especial F&T