Comportamento

‘Medicalização’ do comportamento infantil: entenda a prática

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Você já ouviu falar em ‘medicalização’ do comportamento infantil? A prática consiste em tratar com remédios condutas que não eram consideradas de ordem médica. A definição é da doutora em saúde coletiva Fabíola Brzozowski.

A profissional explica que a “medicalização pode ocorrer tanto em casos de desvios de comportamento quanto de processos naturais da vida”, e cita como exemplo, no primeiro caso, “homossexualidade, hiperatividade e dificuldades de aprendizagem, problemas alimentares (obesidade e anorexia)”, e no segundo, sexualidade, nascimento e desenvolvimento infantil.

Para essas condutas, muitas vezes é utilizado o medicamento metilfenidato, ou Ritalina, nome comercial substância, que é um estimulante do sistema nervoso central para tratar a falta de foco e diminuir a sensação de fadiga.

Desde 2015, o Brasil é o segundo maior consumidor de metilfenidato no mundo. Dados do Ministério da Saúde mostram um aumento de 775% no consumo do medicamento nos últimos dez anos.

Os números são alarmantes e têm gerado discussões em torno do tema, principalmente por causa da prescrição para crianças e adolescentes, a chamada ‘medicalização’ do comportamento infantil.

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Para o pediatra Daniel Becker, esse é, sem dúvida, o capítulo mais perverso dessa tendência. O aumento vem paralelamente a um “fenômeno mais global, mais amplo, que é a medicalização da vida”, diz.

Mas por que tantas crianças, que não foram diagnosticadas com transtornos cognitivos, estão sendo medicadas com remédios de tarja preta? Essas drogas, além dos efeitos colaterais e das contraindicações, realmente são a solução para o comportamento infantil considerado problema?

Alguns especialistas defendem que é preciso repensar o modo de vida atual, especialmente a família. Pais mais ausentes pela intensa rotina de trabalho e o uso intensivo da tecnologia por crianças e adolescentes podem estar ligados ao aumento do uso de substâncias psicotrópicas, que alteram o sistema nervoso central do paciente.

A psicopedagoga e autora de dois livros sobre educação para crianças, Isa Minatel, acredita que é possível reverter o fenômeno da medicalização do comportamento infantil a partir de maior conhecimento do papel dos pais dentro de casa: “A gente tem um sem-fim de crianças medicalizadas com diagnósticos equivocados, que é por falta de gestão do temperamento dessa criança, por não entender o cérebro, o desenvolvimento infantil”.

Outro fator importante no que tange à medicalização do comportamento infantil é a escola. Médicos e profissionais são unânimes: educadores têm papel fundamental na compreensão da criança do mundo atual.

Para a psicóloga Marilene Proença de Souza, integrante do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, é preciso “entender essa relação que se estabelece entre estudantes, professores, método de ensino, organização da escola e comunidade para que a gente possa, ao entender essas relações, ver onde estão as dificuldades”.

 

Com informações da Agência Brasil

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