Bem-estar

Realidade virtual como complemento no tratamento de paralisia cerebral

 | 

Cuidar de uma criança com paralisia cerebral não é tarefa fácil, sobretudo porque o Brasil possui limitadas unidades de reabilitação, sendo pouco mais de 1.500 pelo Sistema Único de Saúde (SUS), do qual dependem a maioria dos pais. Mas uma pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Informática Aplicada da Universidade de Fortaleza pode vir a auxiliar no tratamento de quem sofre com essas limitações motoras e cognitivas.
Trata-se de um jogo com base em realidade virtual (VR) em que a criança interage com o ambiente através de um pequeno dispositivo com um sensor, denominado de LeapMotion. “Esse sensor é capaz de captar movimentos dos 10 dedos das mãos, permitindo que o usuário possa realizar as tarefas para as quais é submetido”, explica o professor e pesquisador Victor Hugo Costa de Albuquerque, que conta com a ajuda da orientanda de doutorado Juliana Martins de Oliveira, do Núcleo de Atenção Médica Integrada.
Ainda segundo Albuquerque, um sensor de ondas cerebrais, Mindwave, é utilizado para mensurar o nível de concentração da criança durante interação com o jogo. “A pesquisa tem o objetivo de melhorar a qualidade de vida de pacientes e pais, e acelerar o processo de reabilitação por meio de atividades em ambiente virtual lúdico e divertido”, frisa.
A reabilitação motora e cognitiva é estimulada quando o paciente é submetido a desafios propostos pelo próprio jogo, sendo dividido em cinco fases, como diferenciação de cores e formatos de objetos, números, letras e animais, tudo com o movimento das mãos, que são interpretados por meio do LeapMotion.
A pesquisa foi realizada com crianças de 4 a 8 anos, uma vez que a recuperação do sistema nervoso afetado pode ser mais rápida nessa faixa etária. Entretanto, o sistema pode ser utilizado por qualquer pessoa, independentemente de sua idade. Os especialistas estão otimistas em incluir o ambiente virtual nos tratamentos tradicionais, mas é importante enfatizar que “a pesquisa ainda está em fase de aperfeiçoamento”, segundo frisa o professor Victor Hugo.

O lúdico como estímulo
“A implementação desse projeto dentro de um processo de reabilitação, além de trabalhar o lado motor e o cognitivo, pode servir de estímulo para as crianças e suas famílias, pois trabalha de uma forma lúdica, aproximando a criança a uma tecnologia que não é tão acessível no seu cotidiano, consequentemente atingindo o objetivo desse tratamento”, afirma Juliana Martins, doutoranda autora do game.
O projeto, além de tudo, busca mostrar que a realidade virtual não é mais um futuro distante, e que ela está cada vez mais próxima e acessível. Juliana diz também que é muito gratificante ver as crianças enquanto jogam e saber que está contribuindo para que ela cresça e conquiste mais independência. O jogo, inclusive, recebeu menção honrosa na categoria ‘Inovação e Game Design’, no SBGames, o maior evento acadêmico de jogos e entretenimento digital da América Latina.

O que é PC
A paralisia cerebral é um estado neurológico em que a pessoa tem uma ou mais partes do cérebro lesionadas, o que causa um conjunto de desordens permanentes que afetam movimentos e postura. Esse distúrbio ocorre, geralmente, durante o desenvolvimento do cérebro, na maioria das vezes antes do nascimento, mas não necessariamente tem algo a ver com qualquer deficiência nos pais ou doença hereditária. Pode ser causado por hemorragias, deficiência na circulação cerebral ou falta de oxigênio no cérebro, traumatismo, infeções, nascimento prematuro ou icterícia grave neonatal.
Os primeiros sinais de PC aparecem logo na primeira infância ou pré-escola. As crianças acometidas podem ter dificuldades com a deglutição e, normalmente, têm um desequilíbrio no músculo do olho. Os movimentos também podem ser restritos, devido à rigidez muscular, mas os efeitos nas habilidades funcionais variam bastante. Há pessoas que conseguem até caminhar, enquanto outras não. Algumas têm função intelectual normal, ao passo que outras não, além de poderem ter deficiências como cegueira e surdez.

Redação Filhos&Tal