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Recém-nascidos se tornam esperança para famílias em luto na pandemia História é uma dentre inúmeros exemplos na pandemia

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O ano de 2020 foi marcado pela pandemia de Covid-19, que teve início em março. A crise sanitária provocou luto em inúmeras famílias, as quais perderam parentes para a doença. Mas, neste difícil contexto, algumas delas ganharam novos membros, como recém-nascidos, misturando sensações de luto e esperança.

O acontecimento pode ser observado nos números oficiais dos cartórios. De acordo com a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen Brasil), foram 1,3 milhões de falecimentos até novembro de 2020. Em contrapartida, segundo a sigla, os nascimentos somaram 2,5 milhões.

Com tantos recém-nascidos, não raro alguns chegaram a famílias que haviam perdido parentes para a Covid-19. Um exemplo é o que viveu a assistente social Marinete Cardoso, 46. Ela perdeu a mãe para a Covid-19 em abril de 2020, e no mês seguinte descobriu que sua nora estava grávida da primeira neta da família.

“Tive uma perda muito grande no ano passado, que foi minha mãe, de 71 anos. Apesar dela ter diabetes e ser hipertensa, não esperávamos que ela fosse tão cedo. Mas, em nove dias, ela contraiu covid-19, foi internada e faleceu”, conta a filha da vítima.

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Segundo Marinete, os meses seguintes foram de tristeza para toda a família, mas houve um acalento no processo.

“Em maio, minha nora engravidou de uma menina e foi uma alegria imensa, porque tenho três filhos homens, sou a única mulher da casa, e sempre tive vontade de ser avó. Meu filho mais velho, que é casado, quando soube que seria pai correu para me avisar e dizer ser um presente de Deus para nos confortar”, comenta a assistente social.

Por causa da pandemia, Marinete e a família ainda tiveram medo dos riscos de uma gestação durante a crise de falta de oxigênio e hospitais lotados. Naquele mês, recém-nascidos também sofreram em maternidades com a falta do gás O².

“Pensávamos que tudo ia melhorar, mas Manaus sofreu uma segunda onda de Covid-19 e o período coincidiu com o mês em que minha nora teria a bebê. Apesar do susto, deu tudo certo. Ela teve uma bebê saudável no dia 31 de janeiro”, conta a avó, cheia de felicidade.

As dores do luto

Embora a morte seja um estágio natural da vida, quem passa pelo trauma de perder um ente querido sente um grupo de sentimentos, dentre eles raiva e tristeza, os quais formam a sensação de luto. Em 2020,essas emoções negativas se tornaram ainda mais comuns.

Um estudo realizado pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas revelou que 40% dos brasileiros sentiram depressão ou tristeza durante a pandemia.

“O luto é uma experiência muito dolorosa, e os sentimentos iniciais se caracterizam pela presença de saudade, tristeza, sentimento de perda, e pensamentos estressantes da mesma forma. Na primeira fase, a sintomatologia mais constante inclui ansiedade, depressão, fenômenos como taquicardia, estresse, distúrbios do sono e nervosismo”, explica o psicólogo José Trintin.

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José Trintin, psicólogo

Em um segundo momento do luto, de acordo com o profissional, os sentimentos negativos começam a ser superados e o processo de aceitação se inicia. A partir desse momento, sentimentos considerados positivos voltam a ganhar espaço na mente do enlutado.

Impacto de recém-nascidos

Por outro lado, segundo o psicólogo, se tornar pai, mãe ou avó pode causar sentimentos de felicidade genuína nos que vivenciam essa experiência. Até mesmo o processo de luto (negação, raiva, negociação, depressão e aceitação) é alterado.

“A mistura do luto com a alegria faz com que o enlutado pule algumas fases do processo. Há uma cessação da tristeza compensada pela chegada de um novo membro à família. A mudança vai depender do estágio em que cada pessoa se encontra, mas tem o poder de acelerar o luto para a superação”, afirma o psicólogo.