Comportamento

Trabalho e a maternidade: como está o mercado para mulher mãe?

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Porque a recolocação das mulheres mães no mercado de trabalho formal é difícil? Existe preconceito com mulheres que são mães em entrevistas de emprego? Como os profissionais de recursos humanos enxergam a maternidade na vida da mulher na hora da contratação? A rede de apoio é importante para esta inserção das profissionais que são mães? A questão de gênero influência? Existem muitos questionamentos quando o assunto é trabalho e maternidade. Por conta disso, o Filhos&Tal levantou alguns dados e conversou com especialistas para esclarecer tais questionamentos.

Segundo um levantamento feito pela Catho, 71,7% das profissionais que estão inseridas no mercado de trabalho são mães e cerca de 53% delas já deixaram de trabalhar para cuidar dos filhos.  Já os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre gênero (2018) apontam que a dificuldade na inserção das mulheres no mercado de trabalho é por conta da responsabilidade por afazeres domésticos.

Pressão

Jéssica Dias, 27, engravidou aos 23 anos e pediu demissão ainda grávida, por se sentir pressionada no ambiente de trabalho. “Após descobri que estava grávida, passei mal no hotel onde trabalhava. Minha chefa começou a perguntar se eu tinha namorado ou se eu tinha relação ativa. Na semana seguinte, começou a me tratar muito mal e a descontar vários vales de mim. Eu não aguentei a pressão e pedi demissão durante a gravidez. Depois disso, fiquei desempregada por um ano e oito meses, e comecei a busca por emprego quando meu filho tinha seis meses. Devido ser mãe solo, necessitava urgentemente de uma renda”, conta Jéssica.

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Jéssica e seu filho Joaquim – foto: arquivo pessoal

A especialista em gestão de pessoas e professora universitária Wanessa Magalhães, 33, acredita que a dificuldade que as mulheres mães têm ao retornar ao mercado de trabalho se deve há vários fatores, como, a licença maternidade ser apenas de quatro meses, a falta de rede de apoio para que a mulher volte ao trabalho e também ao fato que o mercado de trabalho não está sendo receptivo a todos os tipos de profissionais.

“Na verdade, há muitas dificuldades para que a mãe volte ao mercado de trabalho, eu acredito que a primeira delas é o tempo que tem para voltar ao mercado de trabalho. Geralmente, são de quatro a seis meses pela nossa legislação, um período precoce para que a mãe possa se adaptar a maternidade, sobretudo, mães de primeira viagem. E para que a própria criança atinja um nível de autonomia que consiga passar longas horas longe da mãe, além de outras dificuldades como a necessidade da rede de apoio presente. Quando o assunto é maternidade, ele (o mercado de trabalho) se torna mais exigente. As mães precisam de horários mais flexíveis no trabalho e o mercado tem poucas opções para oferecer”, explica Wanessa.

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Falta de suporte

As poucas opções que a especialista cita foram levantadas pelo instituto Great Place to Work em 2019. Das 244 empresas entrevistadas, 47% não oferecem suporte para inserção das mães ao mercado de trabalho.

“Durante as entrevistas sempre somos questionadas sobre disponibilidade, com quem vamos deixá-los e se não vão interferir”, conta Jéssica, que fez inúmeras entrevistas até conseguir voltar para o mercado de trabalho.

A nutricionista Thayana Oliveira, 29, foi desligada da empresa assim que voltou da licença maternidade, e também enfrentou dificuldade para conseguir uma recolocação no mercado de trabalho. “Quando engravidei, estava trabalhando, estava relativamente em uma boa posição da minha vida profissional, mas dois meses após voltar da licença maternidade fui desligada da empresa. Após isso, passei dois anos até ser contratada novamente na área em que sou formada. Quando voltei a participar de processos seletivos, sempre que eu era aprovada para a fase da entrevista, percebia que não era selecionada para ficar com a vaga por ter uma filha pequena”, conta Thayana.

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A nutricionista Thayana e sua filha Mariana – foto: arquivo pessoal

Durante as seleções, é comum ouvir perguntas rotineiras, mas por que algumas perguntas são direcionadas apenas para as mulheres, principalmente, que são mães? Tanto, Jessica como Thayana relatam dificuldades para a inserção no mercado de trabalho, dificuldades que começam durante o processo seletivo de uma vaga de emprego.

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Responsabilidade

A sociedade ainda enxerga a mãe como única responsável pelo cuidado rotineiro com a criança, por isso é ‘incomum’ quando um pai cumpre suas obrigações com os filhos, como, pegar na escola ou até mesmo faltar um dia no trabalho para levar o filho ao médico. Já os empregadores colocam as profissionais que são mães como ‘peso’ para as empresas e acreditam que as chances de se ausentarem é maior entre as mulheres.

Wanessa Magalhães, que também é mãe, explica que os profissionais de recurso humanos e a sociedade podem fazer ajustes para que as mães possam conseguir com maior facilidade voltar ao mercado de trabalho.

“Na minha percepção, não existe outro caminho para mudar essa realidade que não passe pela mudança do olhar da sociedade para a maternidade e para a paternidade. A partir do momento que a gente começar a mudar esse olhar que o pai pode sim ser cuidador e a mãe provedora, ambos os papéis vão se complementar”, destaca a especialista.

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A especialista em gestão de pessoas, Wanessa, e seu filho Davi – foto: arquivo pessoal

Ela enfatiza que “as empresas deveriam enxergar as profissionais que são mães pelo aspecto de habilidades adquiridas com a maternidade, como maior criatividade, maior empatia, maior capacidade de multifuncionalidades, e várias outras habilidades que uma mãe desenvolve quando exerce esse papel multifacetado que é a maternidade”.

Já Thayana acredita que a melhor forma das mulheres mães conseguirem voltar para o trabalho formal é as empresas mudarem a forma de seleção e os recrutadores. “Também acho válido que as empresas formais possam preparar melhor os recrutadores, para que os mesmos saibam elaborar as entrevistas, de forma não preconceituosa ao achar que somente a mãe tem responsabilidade com a criança”, finaliza a nutricionista.

Thayssa Castro

Especial para Filhos&Tal

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